Guia prático
Como planejar VLSM para uma empresa com filiais
Uma empresa com matriz e três filiais recebeu o bloco 10.40.0.0/20 para a rede interna. Montamos o plano inteiro com a conta aberta: quanto cada segmento precisa, onde cada site fica, como numerar os enlaces e quais rotas anunciar.
O caso: uma empresa tem matriz e três filiais e reservou o bloco privado 10.40.0.0/20 (4.096 endereços) para a rede interna. A matriz precisa de cinco VLANs; cada filial, de quatro. Os sites se ligam à matriz por enlaces ponto a ponto.
Resposta curta: com 30% de folga em cada VLAN, a matriz cabe em um /22, mas fica com 96,9% de uso. Por isso ela recebe um /21 (10.40.0.0/21) e cada filial um /24. As três filiais se resumem em uma rota, 10.40.8.0/22, e os enlaces usam /31 dentro de 10.40.15.240/28.
1. Por que VLSM e não um /24 para tudo
Dar um /24 para cada VLAN é o atalho mais comum. Ele é fácil de lembrar, mas gasta endereços e quebra a sumarização. Uma VLAN de gerência com 20 equipamentos usaria 254 endereços. Um enlace entre dois roteadores usaria outros 254.
VLSM (máscara de tamanho variável) resolve isso. Cada segmento recebe o menor bloco que atende o número de hosts. A RFC 950 definiu a máscara de sub-rede; a RFC 4632 (CIDR) consolidou o roteamento sem classes, em que o que vale é o prefixo e não a classe A, B ou C do endereço.
A regra do tamanho é uma só. Para h hosts, procure o menor número de bits de host b tal que 2b − 2 ≥ h. O prefixo é 32 − b. Os dois endereços descontados são o da rede e o de broadcast.
Para 300 usuários, por exemplo: 28 − 2 = 254 não basta; 29 − 2 = 510 basta. O prefixo é /23, máscara 255.255.254.0, e sobram 210 endereços.
2. O levantamento: quantos hosts em cada segmento
O primeiro passo não é a calculadora. É a lista de equipamentos por VLAN, contada no inventário e conferida com quem opera cada área. Neste caso, os números de hoje são estes:
| Site | Segmento | Hosts hoje |
|---|---|---|
| Matriz | Usuários | 300 |
| Matriz | Wi-Fi visitantes | 120 |
| Matriz | Servidores | 60 |
| Matriz | Câmeras | 40 |
| Matriz | Gerência | 20 |
| Cada filial | Usuários | 50 |
| Cada filial | Wi-Fi | 25 |
| Cada filial | VoIP | 20 |
| Cada filial | Câmeras | 10 |
Se você jogar esses números direto na ferramenta, o plano fica justo demais. Veja a matriz dentro de um /22:
| Segmento | Hosts pedidos | Sub-rede | Máscara | Faixa útil | Broadcast | Sobra |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Usuários | 300 | 10.40.0.0/23 | 255.255.254.0 | 10.40.0.1 – 10.40.1.254 | 10.40.1.255 | 210 |
| Wi-Fi visitantes | 120 | 10.40.2.0/25 | 255.255.255.128 | 10.40.2.1 – 10.40.2.126 | 10.40.2.127 | 6 |
| Servidores | 60 | 10.40.2.128/26 | 255.255.255.192 | 10.40.2.129 – 10.40.2.190 | 10.40.2.191 | 2 |
| Câmeras | 40 | 10.40.2.192/26 | 255.255.255.192 | 10.40.2.193 – 10.40.2.254 | 10.40.2.255 | 22 |
| Gerência | 20 | 10.40.3.0/27 | 255.255.255.224 | 10.40.3.1 – 10.40.3.30 | 10.40.3.31 | 10 |
Os servidores ficam com 2 endereços livres e o Wi-Fi com 6. No primeiro servidor novo, alguém vai ter de renumerar uma VLAN. Por isso entra a margem.
3. Margem de crescimento: 30% em cada VLAN
Use uma margem fixa e escrita no projeto. Aqui adotamos 30%, arredondando para cima. A conta é simples: hosts × 1,30.
| Segmento | Hoje | Com margem | Bloco | Prefixo |
|---|---|---|---|---|
| Matriz · Usuários | 300 | 390 | 512 | /23 |
| Matriz · Wi-Fi visitantes | 120 | 156 | 256 | /24 |
| Matriz · Servidores | 60 | 78 | 128 | /25 |
| Matriz · Câmeras | 40 | 52 | 64 | /26 |
| Matriz · Gerência | 20 | 26 | 32 | /27 |
| Filial · Usuários | 50 | 65 | 128 | /25 |
| Filial · Wi-Fi | 25 | 33 | 64 | /26 |
| Filial · VoIP | 20 | 26 | 32 | /27 |
| Filial · Câmeras | 10 | 13 | 16 | /28 |
A margem nem sempre muda o prefixo. Os 20 equipamentos da gerência viram 26 e continuam em um /27. Já os 60 servidores viram 78 e pulam de /26 para /25. Esse salto é a razão de fazer a conta antes de configurar.
4. Um bloco por site, alinhado
Agora some os blocos de cada site. A matriz usa 992 endereços; o menor bloco potência de 2 que comporta isso tem 1.024 endereços, um /22. Cada filial soma 240 endereços e cabe em um /24 (256).
Por que um bloco único por site? Porque o roteador da matriz precisa de uma rota só para cada filial, e o firewall precisa de uma regra só para "tudo da filial 2". Se as VLANs de um site ficarem espalhadas pelo /20, cada mudança vira uma lista de exceções.
A primeira tentativa coloca a matriz em 10.40.0.0/22. O VLSM dentro dele fecha, mas com 96,9% do bloco ocupado já no primeiro dia. Sobram 32 endereços para tudo o que a matriz ainda vai ganhar.
Como a matriz é o site que mais cresce, damos a ela o dobro: um /21. A alocação fica assim, do maior para o menor, cada bloco começando em um múltiplo do seu tamanho:
| Site | Bloco | Máscara | Endereços |
|---|---|---|---|
| Matriz | 10.40.0.0/21 | 255.255.248.0 | 2.048 |
| Filial 1 | 10.40.8.0/24 | 255.255.255.0 | 256 |
| Filial 2 | 10.40.9.0/24 | 255.255.255.0 | 256 |
| Filial 3 | 10.40.10.0/24 | 255.255.255.0 | 256 |
Alinhar é obrigatório. Um /24 só pode começar em um endereço cujo último octeto é 0. Um /21 só pode começar em 10.40.0.0 ou 10.40.8.0 dentro deste /20. A calculadora de sub-rede mostra isso na tabela de redes vizinhas.
5. O VLSM dentro de cada site
Com o bloco de cada site definido, rode o VLSM dentro dele. A matriz, em 10.40.0.0/21:
| Segmento | Hosts pedidos | Sub-rede | Máscara | Faixa útil | Broadcast | Sobra |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Usuários | 390 | 10.40.0.0/23 | 255.255.254.0 | 10.40.0.1 – 10.40.1.254 | 10.40.1.255 | 120 |
| Wi-Fi visitantes | 156 | 10.40.2.0/24 | 255.255.255.0 | 10.40.2.1 – 10.40.2.254 | 10.40.2.255 | 98 |
| Servidores | 78 | 10.40.3.0/25 | 255.255.255.128 | 10.40.3.1 – 10.40.3.126 | 10.40.3.127 | 48 |
| Câmeras | 52 | 10.40.3.128/26 | 255.255.255.192 | 10.40.3.129 – 10.40.3.190 | 10.40.3.191 | 10 |
| Gerência | 26 | 10.40.3.192/27 | 255.255.255.224 | 10.40.3.193 – 10.40.3.222 | 10.40.3.223 | 4 |
O plano usa 992 de 2.048 endereços (48,4%). O restante do /21, 1.056 endereços a partir de 10.40.3.224, fica livre para novas VLANs ou para aumentar uma das atuais sem sair do bloco da matriz.
Cada filial recebe o mesmo desenho. A filial 1, em 10.40.8.0/24:
| Segmento | Hosts pedidos | Sub-rede | Máscara | Faixa útil | Broadcast | Sobra |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Usuários | 65 | 10.40.8.0/25 | 255.255.255.128 | 10.40.8.1 – 10.40.8.126 | 10.40.8.127 | 61 |
| Wi-Fi | 33 | 10.40.8.128/26 | 255.255.255.192 | 10.40.8.129 – 10.40.8.190 | 10.40.8.191 | 29 |
| VoIP | 26 | 10.40.8.192/27 | 255.255.255.224 | 10.40.8.193 – 10.40.8.222 | 10.40.8.223 | 4 |
| Câmeras | 13 | 10.40.8.224/28 | 255.255.255.240 | 10.40.8.225 – 10.40.8.238 | 10.40.8.239 | 1 |
As filiais 2 e 3 repetem a estrutura em 10.40.9.0/24 e 10.40.10.0/24. Só muda o terceiro octeto. Para quem opera, isso vale ouro: a VLAN de câmeras de qualquer filial fica em .224/28, e o gateway de usuários pode ser sempre o .1.
6. Enlaces entre os sites: /30 ou /31
Os três enlaces matriz–filial são ponto a ponto. Com /30, cada um gasta 4 endereços (rede, dois hosts e broadcast). A RFC 3021 permite usar /31 nesses enlaces: os dois endereços do bloco viram endereços de interface, sem rede e sem broadcast. Cada enlace gasta 2.
Reservamos o último /28 do bloco, 10.40.15.240/28, para infraestrutura. Os enlaces ficam assim:
| Enlace | Prefixo | Lado da matriz | Lado da filial |
|---|---|---|---|
| Matriz–Filial 1 | 10.40.15.240/31 | 10.40.15.240 | 10.40.15.241 |
| Matriz–Filial 2 | 10.40.15.242/31 | 10.40.15.242 | 10.40.15.243 |
| Matriz–Filial 3 | 10.40.15.244/31 | 10.40.15.244 | 10.40.15.245 |
Com /30, os três enlaces usariam 12 endereços; com /31, usam 6. A economia é pequena aqui, mas em uma rede com dezenas de enlaces ela libera blocos inteiros. Antes de adotar /31, confirme que os dois equipamentos do enlace aceitam o prefixo.
7. Sumarização: quais rotas anunciar
O ganho do plano aparece na tabela de rotas. Em vez de anunciar cada VLAN, cada site anuncia o próprio bloco. E a matriz pode anunciar as três filiais juntas para o resto da rede.
A sumarização de rotas das três filiais dá 10.40.8.0/22 (máscara 255.255.252.0, wildcard 0.0.3.255). Esse resumo cobre 1.024 endereços, 256 a mais do que as três filiais usam. Esses 256 são exatamente o /24 seguinte, 10.40.11.0/24: deixe-o reservado para a quarta filial e o resumo continua exato.
Somando matriz e filiais, o resumo de tudo é 10.40.0.0/20, com 1.280 endereços além dos blocos alocados. Do /20 original, o plano usa 2.832 endereços (sites mais o /28 de infraestrutura) e deixa 1.264 livres para os próximos anos.
8. Roteiro para repetir em outra empresa
- Faça o inventário por VLAN, com quem opera cada área.
- Defina a margem por escrito e aplique a todos os segmentos.
- Calcule o bloco de cada segmento e some por site.
- Arredonde cada site para a potência de 2 seguinte e aloque do maior para o menor, alinhado.
- Rode o VLSM dentro de cada site e padronize a posição das VLANs entre filiais.
- Reserve um bloco de infraestrutura para enlaces e loopbacks.
- Confira a sumarização e reserve os blocos que mantêm o resumo exato.
Perguntas frequentes
Posso usar a primeira e a última sub-rede do bloco?
Pode. A RFC 1878 já tratava como obsoleta a prática de descartar a sub-rede "toda zero" e a "toda um". A própria RFC registra que o software atual pode usar todas as sub-redes definidas pela máscara.
Por que 10.40.0.0 e não 192.168.x.x?
As duas faixas são privadas pela RFC 1918, assim como 172.16.0.0/12. A 10.0.0.0/8 é a maior delas e facilita planos com muitos sites. Prefira um bloco pouco previsível: se a rede de casa de quem acessa por VPN usar a mesma faixa da empresa, as rotas entram em conflito.
E se uma filial crescer além do /24?
Se o /24 vizinho estiver livre e o bloco ficar alinhado, ela passa para um /23. Se não estiver, a filial ganha um segundo bloco e a rota resumida deixa de ser exata. Por isso vale reservar espaço ao lado dos sites que tendem a crescer, como fizemos com a matriz.
Preciso refazer as contas à mão?
Não. Abra a calculadora VLSM, informe o bloco do site e uma linha por segmento (nome e número de hosts). Ela ordena, alinha e mostra a sobra de cada sub-rede. Para conferir um prefixo isolado, use a máscara por número de hosts.
vlsmFaça a conta com os seus númerosDivida uma rede em sub-redes de tamanhos diferentes, sem desperdício nem sobreposição.Fontes e referências
- RFC 1918 — Address Allocation for Private InternetsFaixa privada 10.0.0.0/8 usada no exemplo e uso sem registro dentro da empresa
- RFC 950 — Internet Standard Subnetting ProcedureDivisão do endereço em rede, sub-rede e host com máscara
- RFC 1878 — Variable Length Subnet Table For IPv4Tabela de máscaras e tamanhos de bloco; a RFC chama de obsoleta a prática de descartar a primeira e a última sub-rede
- RFC 3021 — Using 31-Bit Prefixes on IPv4 Point-to-Point LinksUso de /31 em enlaces ponto a ponto, com os dois endereços tratados como hosts
- RFC 4632 — Classless Inter-domain Routing (CIDR)Roteamento sem classes e agregação de prefixos (sumarização)
Conferimos cada afirmação técnica nas fontes acima. Os números foram calculados com as mesmas fórmulas das ferramentas do site. Veja a metodologia e a lista completa de fontes.