Guia prático
BDP em link satelital LEO e em fibra: a conta da distância
Uma filial remota pode ser atendida por fibra ou por um serviço de satélite em órbita baixa. Antes de comparar planos, vale saber o piso que a física impõe a cada caminho. Fizemos a conta com a velocidade da luz e mostramos como o RTT medido entra no BDP.
O caso: uma filial remota precisa de 200 Mbps até o data center. Há duas ofertas: fibra, com uma rota de 1.500 km até o data center (exemplo), e um serviço de satélite em órbita baixa (LEO). Para comparar, usamos uma altitude de exemplo de 550 km para o satélite.
Resposta curta: a física impõe um piso de RTT de 15,0 ms à fibra (5 µs/km, valor da UIT) e de 7,34 ms ao satélite a 550 km, no melhor caso geométrico e sem contar o trecho terrestre do gateway até o data center. Um satélite geoestacionário teria piso de 477 ms. O RTT real é sempre maior e precisa ser medido. Com 50 ms medidos, o BDP a 200 Mbps é 1.221 KiB: uma janela de 64 KiB entrega no máximo 10,5 Mbps por conexão.
1. O piso que nenhum equipamento remove
O atraso de um link tem várias parcelas: fila nos equipamentos, processamento, serialização dos pacotes e propagação. As três primeiras dependem de equipamento e de carga. A propagação depende só da distância e do meio, e é o piso abaixo do qual nenhum upgrade chega.
No vácuo, a luz percorre um quilômetro em 3,336 µs. A velocidade da luz, c = 299.792.458 m/s, é um valor exato do Sistema Internacional, segundo o BIPM. No vidro da fibra, a luz anda mais devagar. Para planejamento, a recomendação ITU-T G.114 da UIT usa 5 µs por quilômetro de fibra óptica.
2. Fibra: a rota, não a distância no mapa
Para a rota de exemplo de 1.500 km, o atraso de ida é 1.500 × 5 µs = 7,50 ms, e o RTT mínimo é 15,0 ms.
O número que entra na conta é o comprimento do cabo, não a distância em linha reta. Cabos seguem estradas, ferrovias e dutos, e a rota contratada pode passar por cidades fora do caminho direto. Pergunte ao provedor o comprimento da rota ou, melhor, meça o RTT depois de ativado.
3. Satélite em órbita baixa: o caminho sobe e desce
Em um serviço por satélite, o sinal sai do terminal da filial, sobe até o satélite, desce até uma estação terrena (gateway) e de lá segue pela rede terrestre. A resposta faz o caminho inverso. São quatro trechos entre o solo e o satélite em cada ida e volta.
O menor caminho possível acontece quando o satélite está exatamente acima do terminal e do gateway ao mesmo tempo: cada trecho mede a própria altitude. Com 550 km:
Esse é um piso geométrico, não uma previsão. Na prática, o satélite raramente está a pino; em ângulos mais baixos, cada trecho é mais longo que a altitude. O satélite se move, então a distância muda o tempo todo. E depois do gateway ainda há a rede terrestre até o data center, com a mesma conta de fibra da seção 2.
A altitude de 550 km é um exemplo. A de cada constelação está nos documentos do operador; use a do serviço que você está avaliando.
4. Satélite geoestacionário: o piso alto
Um satélite geoestacionário fica a cerca de 35.786 km acima do equador, valor registrado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM). Pela mesma conta:
É quase meio segundo só de propagação, 65 vezes o piso do exemplo em órbita baixa. Essa diferença explica por que a órbita importa tanto para aplicações interativas e para o desempenho do TCP.
5. O trecho em terra depois do gateway
O piso do satélite cobre só a subida e a descida. Do gateway até o data center, o tráfego segue por fibra, com a mesma conta de 5 µs/km. Se o gateway estiver a 300 km de rota do data center (exemplo), esse trecho soma 3,00 ms ao RTT, e o piso do caminho completo vai para 10,3 ms.
A posição do gateway, portanto, pesa tanto quanto a altitude. Um gateway longe do data center pode consumir a vantagem da órbita baixa sobre a rota de fibra. É uma pergunta a fazer ao provedor: por qual gateway o tráfego da filial sai, e onde ele fica.
6. Do RTT ao BDP
O produto banda × atraso (BDP), como define a RFC 6349, é a quantidade de dados em trânsito necessária para manter o link cheio:
A 200 Mbps, para cada RTT:
| Cenário | RTT | BDP | Teto com janela de 64 KiB |
|---|---|---|---|
| Fibra, só propagação | 15,0 ms | 366 KiB | 35,0 Mbps |
| LEO, piso geométrico | 7,34 ms | 179 KiB | 71,4 Mbps |
| RTT de exemplo: 30 ms | 30,0 ms | 732 KiB | 17,5 Mbps |
| RTT de exemplo: 50 ms | 50,0 ms | 1.221 KiB | 10,5 Mbps |
| RTT de exemplo: 80 ms | 80,0 ms | 1.953 KiB | 6,55 Mbps |
| GEO, piso geométrico | 477 ms | 11.657 KiB | 1,10 Mbps |
As linhas de 30, 50 e 80 ms são exemplos para a conta, não medições de um serviço. Elas mostram o que acontece quando o RTT real fica acima do piso, como sempre fica.
Com 64 KiB de janela, uma única conexão TCP só enche os 200 Mbps enquanto o RTT não passa de 2,62 ms. Acima disso, o limite é a janela, não o link.
7. Quanto de janela cada caminho pede
A conta inversa diz de que janela as pontas precisam para uma conexão usar o link inteiro:
| Cenário | RTT | Janela necessária | Window scale mínimo |
|---|---|---|---|
| Fibra, só propagação | 15,0 ms | 366 KiB | 3 |
| LEO, piso geométrico | 7,34 ms | 179 KiB | 2 |
| RTT de exemplo: 30 ms | 30,0 ms | 732 KiB | 4 |
| RTT de exemplo: 50 ms | 50,0 ms | 1.221 KiB | 5 |
| RTT de exemplo: 80 ms | 80,0 ms | 1.953 KiB | 5 |
| GEO, piso geométrico | 477 ms | 11.657 KiB | 8 |
A opção window scale da RFC 7323 permite anunciar janelas muito acima de 64 KiB. Os sistemas operacionais atuais a negociam sozinhos, desde que nenhum equipamento no caminho a remova. Em link geoestacionário, a janela necessária passa de 11,4 MiB; se ela ficar presa em 64 KiB, uma conexão entrega 1,10 Mbps em um link de 200 Mbps.
8. O que medir antes de decidir
O piso físico ajuda a descartar promessas impossíveis e a entender por que um caminho é mais lento que outro. A decisão, porém, depende do RTT e da perda medidos no serviço real, de preferência em horários diferentes.
- Meça o RTT do terminal até o data center, não só até o primeiro salto.
- Repita a medição ao longo do dia: carga e, no satélite, a posição dos satélites mudam o resultado.
- Calcule o BDP com o RTT medido e confira a janela TCP nas duas pontas.
- Meça a perda de pacotes. Com RTT maior, a mesma perda derruba mais a vazão de uma conexão TCP com controle de congestionamento clássico.
- Teste a aplicação que importa, não só um teste de velocidade.
Perguntas frequentes
Por que quatro trechos e não dois?
Porque o RTT é ida e volta. Na ida, o pacote sobe do terminal ao satélite e desce ao gateway; na volta, a resposta sobe do gateway ao satélite e desce ao terminal. São dois trechos em cada sentido, quatro no total.
Por que a fibra não usa a velocidade da luz no vácuo?
Porque a luz é mais lenta no vidro. A G.114 adota 5 µs/km para fibra, contra 3,336 µs/km no vácuo. O valor da UIT é para planejamento e já considera o meio.
E se a constelação estiver mais alta, a 1.200 km?
O piso geométrico cresce na mesma proporção: 4 × 1.200 km ÷ c = 16,0 ms, contra 7,34 ms a 550 km. Ainda muito abaixo do geoestacionário, mas a diferença aparece no BDP: a 200 Mbps, são 391 KiB só de piso.
E se eu contratar mais banda no mesmo caminho?
O RTT não muda, mas o BDP cresce na mesma proporção da banda. Com 50 ms, 500 Mbps pedem 2,98 MiB de janela por conexão, contra 1,19 MiB a 200 Mbps. Mais banda sem janela maior não aparece em uma conexão só.
O teste de velocidade dá 200 Mbps, mas a cópia de arquivos não. Por quê?
Se o teste usa várias conexões em paralelo e a cópia usa uma só, a cópia fica limitada pela janela daquela conexão. Confira nas opções do teste quantas conexões ele abre e compare com o BDP do link. O guia por que a janela TCP limita a velocidade em links longos detalha essa conta.
Quanto atraso somam 1.000 km de fibra?
Pelo valor da G.114, 5 ms na ida e 10 ms na ida e volta. É uma conta útil para conferir se o RTT medido de um link terrestre faz sentido para a distância da rota.
Onde faço a conta do meu link?
Na calculadora de BDP e janela TCP: informe a banda contratada e o RTT medido. Ela mostra o BDP, o teto com a janela atual e, se você informar a perda, o teto pelo modelo de perda.
tcp-bdpFaça a conta com os seus númerosBanda × RTT: a janela TCP que o link precisa e a vazão real de um fluxo.Fontes e referências
- ITU-T G.114 — One-way transmission timeValor de planejamento de 5 µs/km para o atraso em sistemas de fibra óptica
- BIPM — SI defining constantsVelocidade da luz no vácuo, c = 299 792 458 m/s, valor exato por definição
- OMM (WMO) — WMDR, Geostationary orbit rangeAltitude da órbita geoestacionária, cerca de 35.786 km acima do equador
- RFC 6349 — Framework for TCP Throughput TestingDefinição do BDP como capacidade do enlace × atraso fim a fim
- RFC 7323 — TCP Extensions for High PerformanceWindow scale e janelas acima de 64 KiB
Conferimos cada afirmação técnica nas fontes acima. Os números foram calculados com as mesmas fórmulas das ferramentas do site. Veja a metodologia e a lista completa de fontes.